Atualmente, paira no ar um certo "especular o mundo" para ver se há algo sensacional ou que ao menos distraia. Nada contra, diletantismo taí pra isso. O inconcebível, na minha mentalidade de trator, é que isso vire metodologia de ensino e pesquisa. Acredito que as ciências humanas estão se encharcando nesta fonte – não conheço a quantas andam as outras, ou melhor, o "estado da arte das outras", HAHAHA! Só sei que em nome de um conhecimento liberto de qualquer ideologia ou fórmula – coisa com a qual concordo – tá valendo tudo! – coisa que abomino. Parcas e porcas ideias estão virando "possibilidade de análise" e fantasias de toda a sorte passam a orientar pesquisas. TERRÍVEL PESPECTIVA!, diria Vidal.
Vai daí que daí que ontem tropecei no texto – muito bom! – de um sociólogo. Nada conheço sobre o autor, só sei que gostei muito do que ele escreveu e vou reproduzi-lo aqui. Afinal, não se tratam de questões apenas pra quem é "das humanas" ou ensina. Acho que a preocupação pode ser estendida pra tudo neste mundão de hoje em dia. Depois vou verificar se todos leram, ok? Quem tentar dar trucão, vai levá piaba! (O texto é da Folha de Sunpaulo de 06/07)
A ciência da sociedade está à deriva
Zander Navarro, prof. UFRGS e pesquisador-visitante do Instituto de Estudos sobre o Desenvolvimento (Sussex, Inglaterra).
REINAÇÃO DO autoengano, da ingenuidade subcapitalista e do irracionalismo religioso, o pensamento mágico prospera em todos os poros de nossa sociedade. Os governantes e nossas elites incentivam como podem a ampliação dessa sociabilidade ilusória. Afinal, é o ocultamento da realidade que permite a fixação da ordem existente, consagrando o Brasil como modelo da desigualdade e das injustiças sociais. Deveria ser o melhor dos mundos para animar o robusto desenvolvimento do que Weber chamou de "ciências do espírito", a tríade formada por sociologia, antropologia e ciência política. No entanto, focada apenas a ciência da sociedade, a sociologia, é uma chocante ironia que tenhamos observado a obrigatoriedade de sua inclusão nos currículos do ensino médio exatamente quando é ciência que experimenta a sua maior crise, não apenas como um sistema de conhecimento, mas também como uma instituição social e uma profissão. Onde estão os cientistas sociais que demarcaram os debates públicos em anos passados? Por que se refugiaram no comodismo das universidades públicas e se conformaram à domesticação de seu papel crítico? Por que se confinam, cada vez mais, aos estudos hiperespecializados, ao hermetismo narcísico ou à produção estéril que se repete em guetos de autoexaltação? É um fenômeno apenas brasileiro? Estaria perdendo a sociologia a sua relevância, a ponto de poder ser em breve dispensada? Como entender que essa ameaça ocorra exatamente quando se multiplicam os seus praticantes e os cursos existentes, e cresce o número de sociólogos doutores? Os impasses atuais da sociologia são muito distintos dos do século 19, quando surgiu no firmamento científico, estimulada pela luta teórica entre positivistas e neokantianos, estes defendendo a bifurcação entre ciências naturais e ciências humanas. Essa disputa constituiu o pensamento clássico que foi sendo abandonado recentemente, sobretudo a partir dos anos 80, dando lugar à anarquia do relativismo cultural e às subteorias de um conhecimento fragmentado. A tradição clássica foi assim decomposta e superada por um pensamento ideológico centrado em diversos códigos obscuros e distantes de problemáticas sociais. No caso brasileiro, esse refluxo foi mais acentuado em função da partidarização e do militantismo que tem sido corriqueiros entre nós, sobretudo nos anos pós-democratização. Assim, parece equivocado o diagnóstico do influente sociólogo Anthony Giddens, sugerindo que, pelo contrário, a sociologia seria mais forte atualmente, porque as ciências sociais já fariam parte do imaginário público, que as toma como dadas e parte do senso comum. A sociologia surgiu como a leitura crítica da modernidade, mas a sua revisão contemporânea e a traição de sua história depositam-na em um vácuo ontológico. O declínio correspondente da modernidade pode ser atribuído a diversos fatores, entre os quais a perda de soberania do Estado-nação, o impacto das revoluções democráticas, sobretudo as operadas no antigo bloco soviético, a emergência de novas concepções sobre as relações entre sociedade e natureza e, também, a crescente importância do conhecimento na estruturação social. Se examinado apenas um desses aspectos, as revoluções sempre foram decisivas para a produção de novos sistemas de conhecimento, inclusive a sociologia. Mas aqueles modelos gerados no contexto da Guerra Fria não mais repercutem na vida social, nem o liberalismo ocidental, nem a social-democracia, nem o marxismo, nenhum deles bem-sucedido em oferecer fundamentos para um conhecimento sociológico consistente. Assim nasceu a profunda crise atual dessa ciência, a qual tem sua origem na relação de estranhamento da sociologia com a explicação de seu objeto, a sociedade. Na tradição de "A Imaginação Sociológica", de Wright Mills, é urgente a recuperação da capacidade analítica da sociologia, confrontando todas as formas de poder, de dominação e de produção das hierarquias com as suas manifestações na ordem social. Se assim não for, ela poderá se tornar descartável, pois impotente para interpretar os temas sociais. No Brasil, a despartidarização da sociologia, sem significar a sua despolitização e, menos ainda, a sua neutralidade, é outra urgência para ela reerguer-se como ciência. É preciso localizar a possibilidade de torná-la relativamente autônoma, mas igualmente capaz de responder à sociedade e suas necessidades de análise dos processos sociais, assim retornando ao seu papel de consciência crítica dos arranjos societários.

Vai daí que daí que ontem tropecei no texto – muito bom! – de um sociólogo. Nada conheço sobre o autor, só sei que gostei muito do que ele escreveu e vou reproduzi-lo aqui. Afinal, não se tratam de questões apenas pra quem é "das humanas" ou ensina. Acho que a preocupação pode ser estendida pra tudo neste mundão de hoje em dia. Depois vou verificar se todos leram, ok? Quem tentar dar trucão, vai levá piaba! (O texto é da Folha de Sunpaulo de 06/07)
A ciência da sociedade está à deriva
Zander Navarro, prof. UFRGS e pesquisador-visitante do Instituto de Estudos sobre o Desenvolvimento (Sussex, Inglaterra).
REINAÇÃO DO autoengano, da ingenuidade subcapitalista e do irracionalismo religioso, o pensamento mágico prospera em todos os poros de nossa sociedade. Os governantes e nossas elites incentivam como podem a ampliação dessa sociabilidade ilusória. Afinal, é o ocultamento da realidade que permite a fixação da ordem existente, consagrando o Brasil como modelo da desigualdade e das injustiças sociais. Deveria ser o melhor dos mundos para animar o robusto desenvolvimento do que Weber chamou de "ciências do espírito", a tríade formada por sociologia, antropologia e ciência política. No entanto, focada apenas a ciência da sociedade, a sociologia, é uma chocante ironia que tenhamos observado a obrigatoriedade de sua inclusão nos currículos do ensino médio exatamente quando é ciência que experimenta a sua maior crise, não apenas como um sistema de conhecimento, mas também como uma instituição social e uma profissão. Onde estão os cientistas sociais que demarcaram os debates públicos em anos passados? Por que se refugiaram no comodismo das universidades públicas e se conformaram à domesticação de seu papel crítico? Por que se confinam, cada vez mais, aos estudos hiperespecializados, ao hermetismo narcísico ou à produção estéril que se repete em guetos de autoexaltação? É um fenômeno apenas brasileiro? Estaria perdendo a sociologia a sua relevância, a ponto de poder ser em breve dispensada? Como entender que essa ameaça ocorra exatamente quando se multiplicam os seus praticantes e os cursos existentes, e cresce o número de sociólogos doutores? Os impasses atuais da sociologia são muito distintos dos do século 19, quando surgiu no firmamento científico, estimulada pela luta teórica entre positivistas e neokantianos, estes defendendo a bifurcação entre ciências naturais e ciências humanas. Essa disputa constituiu o pensamento clássico que foi sendo abandonado recentemente, sobretudo a partir dos anos 80, dando lugar à anarquia do relativismo cultural e às subteorias de um conhecimento fragmentado. A tradição clássica foi assim decomposta e superada por um pensamento ideológico centrado em diversos códigos obscuros e distantes de problemáticas sociais. No caso brasileiro, esse refluxo foi mais acentuado em função da partidarização e do militantismo que tem sido corriqueiros entre nós, sobretudo nos anos pós-democratização. Assim, parece equivocado o diagnóstico do influente sociólogo Anthony Giddens, sugerindo que, pelo contrário, a sociologia seria mais forte atualmente, porque as ciências sociais já fariam parte do imaginário público, que as toma como dadas e parte do senso comum. A sociologia surgiu como a leitura crítica da modernidade, mas a sua revisão contemporânea e a traição de sua história depositam-na em um vácuo ontológico. O declínio correspondente da modernidade pode ser atribuído a diversos fatores, entre os quais a perda de soberania do Estado-nação, o impacto das revoluções democráticas, sobretudo as operadas no antigo bloco soviético, a emergência de novas concepções sobre as relações entre sociedade e natureza e, também, a crescente importância do conhecimento na estruturação social. Se examinado apenas um desses aspectos, as revoluções sempre foram decisivas para a produção de novos sistemas de conhecimento, inclusive a sociologia. Mas aqueles modelos gerados no contexto da Guerra Fria não mais repercutem na vida social, nem o liberalismo ocidental, nem a social-democracia, nem o marxismo, nenhum deles bem-sucedido em oferecer fundamentos para um conhecimento sociológico consistente. Assim nasceu a profunda crise atual dessa ciência, a qual tem sua origem na relação de estranhamento da sociologia com a explicação de seu objeto, a sociedade. Na tradição de "A Imaginação Sociológica", de Wright Mills, é urgente a recuperação da capacidade analítica da sociologia, confrontando todas as formas de poder, de dominação e de produção das hierarquias com as suas manifestações na ordem social. Se assim não for, ela poderá se tornar descartável, pois impotente para interpretar os temas sociais. No Brasil, a despartidarização da sociologia, sem significar a sua despolitização e, menos ainda, a sua neutralidade, é outra urgência para ela reerguer-se como ciência. É preciso localizar a possibilidade de torná-la relativamente autônoma, mas igualmente capaz de responder à sociedade e suas necessidades de análise dos processos sociais, assim retornando ao seu papel de consciência crítica dos arranjos societários.



2 desgovernando |E você, o que diz?|:
Ohi, comadre, eu ate comecei a ler, bem aplicada, mas vou pegar um vale, posso? Ando com o cerebro meio entravado, nao to atentando no que representa o texto, nao - so sei do que se trata por causa do teu resuminho ali em cima, entao boto fe que seja bom.
Beleza, comadre! Vale aceito! =)
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