quarta-feira, 20 de maio de 2009

Queremos mesmo o fim da corrupção?

Estava lendo que um sujeito de Santa Catarina foi preso por ter aberto um brechó com roupas que foram doadas na época das enchentes por aqui – aliás, ainda tem gente em moradia provisória desde então, mesmo que tenha havido liberação emergencial de verbas para reconstruções; ok, por mais ínfimas que fossem, essas verbas não foram totalmente aplicadas para este fim. Políticos casca-grossa e burocratas encalacrados ainda hoje alegam que vão estar convocando uma licitação e analisando caso a caso, pois nada pode ser feito fora da lei e...

Bom, a situação toda é revoltante. E o descaso geral se repete no nordeste do país. Como se não bastasse, tem quem tire proveito da situação; pior: sem ver nada de tão errado nisso. Funcionários públicos liberam donativos arrecadados em todo o país para que um sujeito que nem foi atingido pela enchente ganhe uma graninha. E está tudo bem, afinal, ninguém ali é assaltante ou traficante, são todas "pessoas de bem", certo?

Me lembrei de uma conversa que ouvi há uns anos entre duas alunas universitárias. Uma contava à outra que um policial a havia abordado – ela e o namorado, que dirigia o carro. "Fala sério, o cara teve a coragem de pedir os documentos pro Ti! Sabe, em vez de prendendo bandido, essa polícia corrupta fica ameaçando gente que nem a gente, né? Por isso quetudo do jeito que , viu? Este país é uma merda mesmo." O motivo pelo qual o policial abordou Ti? A própria competitiva e proativa jovem contou: "Sério, cara. Olha a quantidade de semáforo que tem ali na rua X. Não dá, né? 8 da noite e a gente já tava atrasado. Aí, o Ti foi furando os sinais. Acho que furou uns 5 ou 6, nada demais, mas ele não viu que o babaca do policial tava logo atrás. Mas enquanto ele enchia o saco da gente, garanto que um monte de pessoas tava sendo assaltada, viu?".

Podre. Aquela lógica distorcida que entende que ser da classe média, frequentar universidade, dirigir um carro bacana – resumindo, não ser pobre – dá permissão para todo o tipo de cretinice, afinal, "não somos bandidos", não é mesmo? É como se fosse ponto pacífico que essas infrações são apenas ingênuas pisadas na bola, coisa de gente jovem e saudável se divertindo ("quem é que nunca foi jovem, né?"). Errados estão os outros.

Infelizmente, a corrupção nos meios político, judicial, empresarial e policial é imensa neste país. E falar de certas regras necessárias à convivência, de justiça social ou cumprimento da lei passa a ser considerado hipocrisia. Mas continua havendo aquela indignação quanto à tolerância das pessoas à corrupção ter chegado ao ponto em que chegou neste país – pois outra coisa recorrente é a utilização de expressões como "as pessoas" ou "o povo". São sempre aglomerados imaginários, certamente formados por gente pobre – os outros, os errados, os infratores, os que ameaçam a tranquilidade das "pessoas de bem" ou os que nada fazem para melhorar a situação do país.

Depoimento do ex-delegado Hélio Luz, que comandou a polícia civil do Rio de Janeiro no fim dos anos 90. Documentário Notícias de uma guerra particular (1999)



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