Li hoje algumas críticas sobre o livro História do pranto, do argentino Alan Pauls. A ficção se passa na Argentina, anos 70, no período da ditadura. Pauls explicou que quis escrever sobre o período numa perspectiva diferente daquelas que tratam do mesmo assunto, sem sair definindo bons e maus (militantes de esquerda e militares). Para ele, "é preciso romper a lei que estabelece que os únicos autorizados a pensar, escrever e recordar os anos 70 são os que os protagonizaram." |Folha SP, 07.08.08| Além de outra perspectiva para tratar do tema, a forma como construiu seu texto parece fugir do relato de memórias cronologicamente encadeadas.
Nunca li nada desse autor, não posso falar sobre seus livros, apenas que dão vontade de ler.
Mas antes de fazê-lo, chegam os críticos, para explicar aquilo que, acreditam, não podemos entender, explicar aquilo que supostamente está oculto ou disfarçado no esqueleto da narrativa, os elementos internos e externos do texto, os mecanismos de linguagem utilizados, blablablá...
... é um tema forte, movediço, e o romance cria passagens comoventes e uma trama bem arquitetada de acontecimentos. Da mesma maneira, não há como negar que estamos diante de um estilista habilidoso. Mas o que falta é justamente a marca de dependência entre a língua e o assunto. A que serve a hipnose vertiginosa das frases? A que serve o excesso de intervenções parentéticas?
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Sinais múltiplos e centrífugos que fragmentam a narrativa em vários pedaços: quase todos belos, mas, em boa medida, em vão. Se concordarmos com Baudelaire, que disse que "o belo é um combate em que o artista grita de pavor antes de ser vencido", faltam aqui o combate e o pavor, pois a beleza impera solitária. | Noemi Jaffe, Ilustrada, Folha SP, 07.08.08 |

Tá. Tentando captar o que disse a crítica: o que falta é
a marca da dependência entre língua e assunto. Só para eu entender: falta o quê????
Há excesso de intervenções parentéticas – fui procurar no dicionário o que é que está tão excessivo na opinião da autora da crítica: os parênteses! Por fim, "se concordarmos com Baudelaire, o belo etc etc etc...". Mas... e se não concordarmos com Baudelaire? E se gostarmos de Baudelaire e acreditarmos que uma coisa não tem nada a ver com outra. E se nem conhecermos Baudelaire? E qual o problema em fragmentar a narrativa? E quem define o que é
em vão?
Que me desculpem os iluminados, mas talvez as pessoas queiram apenas ler livros, conhecer histórias, embarcar em ritmos narrativos diferentes. Acho que esta discussão deve datar do dia em que algum sujeito desenhou seqüências nas paredes de sua caverna e outros acharam que a tal seqüência poderia ter sido representada de outras formas, que ela funcionaria melhor se o vermelho fosse branco.
É óbvio que há coisas que detestamos, livros que nem terminamos, filmes que odiamos. Dá pano pra manga cada discussão sobre isso. Mas fico com um certo pé atrás quando se passa da discussão pra afirmação categórica; quando se quer transformar uma reflexão em fórmula exata, como se as coisas não pudessem ser expressas de outra forma.